Isso é algo que carrego comigo há muito tempo. Não sei por que esta noite pareceu o momento certo para ligar, mas cá estou. Fui para a Índia aos dezoito anos. 1976. Tinha acabado de largar a faculdade, não conseguia descobrir o que queria da vida, e um amigo meu estava lendo todos aqueles livros sobre espiritualidade oriental. Ele me convenceu a ir junto, mas desistiu na última hora. Então fui sozinho. Gastei toda minha economia na passagem de avião. Terminei em um ashram perto de Rishikesh. Lugar pequeno, talvez trinta moradores de cada vez. O professor principal, a gente chamava de Guruji, estava lá desde os anos 1950. Velho, mesmo naquela época. Barba branca até o peito, esses olhos que pareciam atravessar você. Eu sei que isso soa como coisa de filme, mas era verdade. Fiquei. Essa é a versão curta. Fiquei quarenta anos. Aprendi sânscrito, aprendi as práticas de meditação, me tornei professor também, eventualmente. Aquele ashram virou todo o meu mundo. Voltei para os Estados Unidos há três anos quando minha mãe adoeceu, mas por quatro décadas aquele lugar foi minha casa. Quero contar sobre algo que aconteceu uns quinze anos depois que cheguei. 1991. A monção tinha acabado de terminar, e estávamos entrando nos meses mais frescos. Todos no ashram tinham descido até a aldeia para as celebrações de Diwali. Guruji nunca ia nessas coisas. Dizia que preferia o silêncio. E eu tinha torcido o tornozelo bastante na semana anterior, não conseguia caminhar aquela distância. Então fiquei para trás também. Só eu e Guruji no ashram naquela noite.
Não conseguia dormir. O tornozelo latejava, e tinha acabado a pasta de ervas que o cozinheiro costumava fazer para mim. Então levantei por volta das duas, talvez três da madrugada, e saí para o pátio tomar um ar. Noite clara, estrelas por todo lado. Você não sabe como são as estrelas de verdade até ter estado num lugar sem poluição luminosa. Ficar sozinho num ashram deve ser tranquilo, Sarah. O pátio ficava no centro do ashram. Piso de pedra, polido pelos pés de décadas. Algumas árvores de nim nas bordas. E no meio, estava Guruji. Sentado em posição de lótus, o que não era nada incomum. Mas havia uma luz. Não era uma lâmpada, não era uma vela. Uma luminosidade suave, azul-branca, vindo de cima dele, de algo acima dele. E ao redor dele, em círculo, havia figuras. Cinco delas. Altas. Magras. Membros mais longos do que o de uma pessoa deveria ter. A pele delas, se é que dava para chamar assim, tinha uma qualidade quase translúcida. Dava para ver a luz passando por elas em certos lugares. As cabeças eram alongadas, lisas, e os olhos eram grandes e escuros, mas não assustavam. Eu sei que isso soa estranho. Mas não havia nada ameaçador nelas. Estavam sentadas com ele. Ouvindo. Congelei na porta. Meu coração batia tão forte que dava para sentir no tornozelo machucado. Mas não corri. Fiquei parado nas sombras e observei.
Estavam se comunicando com Guruji. Sem som, sem palavras que eu pudesse ouvir, mas havia algo passando entre eles. Dava para ver no jeito que se inclinavam em direção a ele, no jeito que a luz mudava e pulsava com algum tipo de ritmo. Devo ter ficado parado ali uns vinte minutos, talvez mais. O tempo parecia errado. Então senti uma mão no meu ombro e quase caí. Priya, uma das outras estudantes, tinha se aproximado por trás de mim sem fazer barulho. Ela sussurrou para não ter medo, que eram amigos. Que vinham há anos. Ela os chamava de Andromedanos. Era assim que Guruji os chamava. Da galáxia de Andrômeda. Vinham visitá-lo desde antes de eu chegar, desde antes de a maioria de nós chegar. Ela disse que vinham para receber ensinamentos. Eu sei que parece impossível, mas foi isso que ela me disse. Seres de outra galáxia, cruzando distâncias inimagináveis, para sentar aos pés de um velho nas encostas do Himalaia. Queria perguntar tudo para ela. Há quanto tempo ela sabia? Por que ninguém tinha me dito? Mas ela só apertou meu ombro e disse para eu observar. Para testemunhar.
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