O Incidente de Varginha

Inspirado em diversas fontes, incluindo eventos documentados, relatos de encontros, anedotas pessoais e folclore. Alguns nomes, locais e detalhes de identificação foram ajustados para fins de privacidade e continuidade narrativa.

Obrigada por atender. Faz muito tempo que espero para contar essa história para alguém que talvez realmente ouça. E você precisa entender: não estou inventando nada. Meu nome é Luana, e estou ligando de Varginha, Brasil. O que vou contar aconteceu quase trinta anos atrás, mas me lembro como se fosse ontem. Cada detalhe. O cheiro. Os olhos. O medo. Mudou tudo na minha vida. 20 de janeiro de 1996. Eu tinha dezesseis anos. Minha irmã Vera tinha quatorze, e nossa amiga Carolina tinha vinte e dois. Trabalhávamos como domésticas na cidade, e voltávamos juntas para casa naquela tarde de sábado. Era por volta de três e meia da tarde, talvez um pouco mais tarde. O tempo tinha sido estranho naquele dia. Começou com sol, mas à noite choveu granizo com tanta força que danificou telhados. Mas naquele momento, éramos só três meninas cortando caminho por um terreno baldio no bairro Jardim Andere. Tinha um pedaço de terra vazio entre algumas casas, coberto de mato e arbustos. Já tínhamos passado por lá muitas vezes antes. Não era nada especial. Só um pedaço de terra e capim perto de uma oficina mecânica. Eu ia na frente. Vera e Carolina estavam alguns passos atrás de mim. E foi então que vi o grafite na parede, que me fez olhar para a esquerda. E lá estava.

No começo, meu cérebro não conseguia processar o que estava vendo. Agachada contra a parede, talvez a uns dois metros e meio de mim, havia uma criatura. Não era uma pessoa. Não era um animal. Era outra coisa completamente diferente. A coisa era pequena, talvez uns cento e vinte centímetros, curvada com os braços longos entre as pernas. A pele era marrom escuro e parecia molhada, como se estivesse coberta de algum tipo de óleo ou graxa. A pele tinha umas marcas, como veias aparecendo. E a cabeça — a cabeça era enorme em relação ao corpo. Pelo menos três vezes maior que uma cabeça humana, completamente calva, com três protuberâncias no topo, como pequenos chifres. Mas os olhos. Nunca vou esquecer aqueles olhos enquanto eu viver. Eram enormes, vermelho-vivo, e não tinham pupila que eu pudesse ver. Só vermelho sólido. E estavam olhando direto para mim. Olhei nos olhos dela e percebi que estava assustada. Assim como eu estava assustada, a criatura também estava assustada. Foi uma troca de medos. O medo dela pelo nosso. Ela tinha medo de nós da mesma forma que nós tínhamos medo dela. Parecia doente ou ferida. O jeito que ficava agachada, balançando levemente, instável. Como se estivesse com dor ou não conseguisse andar direito. Os pés eram estranhos também, em forma de V. E havia um cheiro. Um cheiro horrível, tipo amônia ou enxofre, tão forte que fazia os olhos lacrimejarem. Carolina tentou se aproximar para ver melhor, mas algo a deteve. Ela disse depois que sentiu uma sensação avassaladora de medo, como se algo estivesse dizendo para não se aproximar. A criatura não nos ameaçava. Parecia estar sofrendo. A expressão dela, se é que dá para chamar assim, parecia triste. Não raivosa. Não agressiva. Só triste e assustada.

Gritei. É um caso bastante conhecido, David. Gritei tão alto que Vera e Carolina deram um pulo. E então saímos correndo. Corremos o mais rápido que podíamos, de volta pelas ruas em direção à nossa casa. Eu estava chorando. Vera tremia como uma folha. Carolina mal conseguia falar. Quando chegamos em casa, dissemos para a nossa mãe que tínhamos visto o diabo. Era assim que chamamos. Não sabíamos de outro jeito de chamar. Minha mãe, Maria Helena, não acreditou em nós no começo. Achou que estávamos inventando histórias ou que tínhamos visto algum animal e nos assustado. Mas então ela nos viu. Pálidas. Tremendo. Eu não parava de chorar. Vera estava em choque. Nossa mãe resolveu voltar ao terreno baldio para ver o que tinha nos assustado tanto. Quando chegou lá, a criatura tinha sumido. Mas ela cheirou. Aquele mesmo cheiro terrível de amônia que descrevemos. Ainda estava no ar. Ela encontrou pegadas estranhas na terra, marcas de três dedos como nunca tinha visto. E havia um cachorro farejando o lugar onde a criatura estava agachada. Foi aí que nossa mãe acreditou em nós. Voltou para casa com o rosto branco. Disse: seja lá o que vocês viram, era real. Tinha algo lá.

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