Boa noite. Esperei muito tempo para contar essa história pra alguém fora da minha família. Mais de trinta anos. Meu nome é Julia, e estou ligando de Rosario, Argentina. O que vou contar aconteceu em 21 de outubro de 1963, na fazenda da minha família em Trancas, na Província de Tucumán. Eu tinha vinte e um anos. Meu marido estava no Exército, em manobras, então minha irmã Carolina e eu viajamos de Rosario com nossos filhos para visitar nossos pais e nossa outra irmã Yvonne na propriedade da família. A fazenda Santa Maria, como chamávamos. A uns três quilômetros da cidade, bem ao lado da linha ferroviária General Belgrano. O gerador tinha quebrado naquela tarde. Tivemos que jantar cedo à luz de velas e lampiões portáteis. Meu pai não estava se sentindo bem, minha mãe estava exausta, então todo mundo foi dormir cedo. Eu estava no meu quarto amamentando meu bebê, Guillermo. Ele tinha só quatro meses. Carolina estava lendo no quarto dela, e Yvonne já estava dormindo. Era perto das nove horas quando Rosa, nossa empregada, entrou no meu quarto parecendo apavorada. Ela tinha só quinze anos, mas nunca era do tipo que assustava fácil. Ficava repetindo que havia luzes estranhas lá fora, perto dos trilhos. Máquinas, ela disse. Havia máquinas lá fora.
Disse a ela que provavelmente não era nada. Talvez um caminhão, talvez trabalhadores consertando os trilhos. Mas ela não se acalmava. Continuava insistindo. Por fim Yvonne acordou, e as duas fomos olhar. No início não víamos nada. Olhamos duas vezes. Mas Rosa ainda estava tremendo, ainda apontando para os trilhos. Então as três caminhamos até o fundo do pátio, perto do portão, e foi aí que as vimos. A uns cento e cinquenta metros, nos trilhos, havia luzes. Luzes fortes. Dois grupos delas, talvez três em cada grupo, com o que parecia um tubo luminoso as conectando. Como um túnel de luz esverdeada se estendendo entre elas. E dentro desse túnel, dávamos para ver figuras se movendo. Silhuetas. Braços, pernas, cabeças. Andando de um lado para o outro entre as luzes. Yvonne achou que poderiam ser guerrilheiros. Havia tido problemas no sul de Tucumán no ano anterior, sabotagem nas ferrovias. Nossos maridos deveriam passar por ali num trem militar na manhã seguinte. Estávamos com medo. Voltamos pra dentro. Yvonne pegou o revólver Colt .38 do meu pai. Eu peguei uma lanterna. Acordamos Carolina e pedimos que ela ficasse com as crianças, então as três de nós, Yvonne, Rosa e eu, voltamos para fora. Usamos as plantações como cobertura enquanto nos aproximávamos dos trilhos.
Quanto mais nos aproximávamos, mais claramente víamos as luzes. Não estavam no chão. Estavam pairando. Cada conjunto de luzes estava embaixo de algo em forma de disco. O túnel verde de luz corria entre dois deles, conectando-os de alguma forma. Então vimos outra luz se aproximando pelo lado. Fraca, esverdeada. Yvonne disse que talvez fosse o caminhão de Rodriguez, um dos peões. Mas não era um caminhão. A luz veio em nossa direção e de repente estávamos dentro dela. Luz verde por toda parte, ao nosso redor, nos nossos rostos, nas nossas roupas. Olhei para cima. Havia uma nave diretamente acima de nós. Enorme. Talvez oito metros de diâmetro, três metros de altura. Girava lentamente no ar, rotacionando. Conseguia ver rebites na superfície. Rebites grandes, como os de um navio. E janelas. Janelas retangulares ao redor da borda, brilhando verde por dentro. Mais vigias na parte inferior. Esta não era a mesma que os dois discos nos trilhos. Era outra coisa. Algo maior.
[ A história continua no jogo completo... ]