Oi, obrigado por me receber. Fiquei em dúvida sobre fazer isso, mas acho que as pessoas precisam ouvir. Sou oceanógrafo. Era, devo dizer. Trinta e um anos no NOAA, aposentado agora. Passei a maior parte da carreira fazendo levantamentos batimétricos, mapeamento do fundo do mar, esse tipo de coisa. Não é um trabalho glamoroso. Você fica encarando leituras de sonar por doze horas por dia, vendo o fundo rolar como um filme cinza que ninguém quer assistir. Isso foi em outubro de 2017. A gente estava navegando o R/V Oceanus pelo Golfo do México, pesquisa em águas profundas. O orçamento tinha sido cortado naquele ano, então operávamos com uma tripulação mínima de cinco pessoas. Justo o suficiente pra manter o navio funcionando e o equipamento online. Minha esposa tava me pressionando a não aceitar a missão. A gente devia visitar a irmã dela naquele mês. Ainda lembro da expressão dela quando eu disse que tinha que ir. É o tipo de coisa que fica com você. Enfim. Quatro dias fora, estávamos escaneando a Sigsbee Deep. É a parte mais profunda do Golfo, chega a uns 4.300 metros em alguns pontos. A gente tinha mapeado boa parte dela antes, anos atrás, mas isso era um levantamento de acompanhamento. Equipamento novo. Resolução muito maior.
Os primeiros três dias foram nada. Planície abissal plana, alguma variação de sedimento, algumas feições menores. O tipo de dado que faz seus olhos embaçarem. Eu tava rodando no café e umas quatro horas de sono por noite. Na terceira noite, quase encerrei cedo. Me disse que ia terminar a grade de levantamento de manhã e voltar. Ainda bem que não fiz isso. No quarto dia, por volta das 3h, eu tava quase dormindo na estação de sonar quando meu estômago afundou. O sinal de retorno tinha mudado. Em vez da planície plana e sem feições que a gente estava vendo por horas, havia algo ali. Uma forma. E não era natural. Pensei que era erro de instrumento a princípio. Verifiquei a calibração, rodei um diagnóstico. Tudo normal. A forma continuava lá. Chamei o Dr. Reyes da cama. Ele fazia isso há mais tempo que eu. Eu queria que outra pessoa olhasse antes de eu começar a acreditar no que estava vendo.
Reyes chegou esfregando os olhos, pronto pra me dizer que eu tava vendo coisas. Então ele olhou pra tela e simplesmente parou. Não disse uma palavra por uns trinta segundos. O objeto era triangular. Triângulo equilátero perfeito, ou próximo o suficiente que a diferença não importava. E era enorme. A gente calculou os números três vezes. Cada lado tinha aproximadamente 270 metros de comprimento. Pra referência, isso é quase três campos de futebol. A coisa estava repousando no fundo do mar a 3.800 metros de profundidade, parcialmente encravada no sedimento como se estivesse lá há algum tempo. O retorno do sonar era estranho. Metais dão um bounce forte e brilhante. Esse era forte, mas tinha outra coisa nele. Uma densidade que a gente não conseguia explicar. Reyes disse que parecia que o sinal estava sendo parcialmente absorvido, o que não deveria acontecer com nenhum material que a gente conhecia. Fizemos passagem após passagem, construindo a imagem. Quanto mais detalhes a gente obtinha, menos sentido fazia. As arestas eram limpas demais. Os ângulos precisos demais. Havia uma estrutura elevada perto de um dos vértices, talvez quarenta metros de altura. Parecia quase uma torre de observação, se fizer algum sentido, mas as proporções estavam todas erradas.
[ A história continua no jogo completo... ]