Boa noite. Agradeço por atender minha ligação. Ouço seu programa há alguns meses, tentando me encorajar pra fazer isso. O que vou contar, nunca compartilhei fora de talvez três pessoas, e duas delas já morreram. Eu era de operações especiais. Não vou dizer qual ramo ou unidade porque, francamente, não importa e prefiro que ninguém venha bater na minha porta. O que importa é que no inverno de 1996 fui enviado pra Antártida. Base McMurdo oficialmente, mas a operação real ficava uns quatrocentos quilômetros no interior. Não posso te dizer o que procurávamos. Assinei papéis. E quero dizer isso de verdade. Mas posso te contar o que me encontrou. Era um reconhecimento solo. Só eu. Nenhuma equipe, nenhum apoio dentro do raio de extração. Era o trabalho. Você vai, observa, reporta, volta. Setenta e duas horas no máximo. Já tinha feito isso antes em condições piores. Achava que sabia no que estava me metendo.
Segundo dia, eu estava a uns 60 quilômetros do ponto de observação primário. Me movendo à noite, que naquela latitude no inverno significa me mover no escuro, ponto final. Vinte e quatro horas dele. Você se acostuma. Seu mundo vira o feixe da sua lanterna de cabeça e o GPS no pulso. A previsão do tempo tinha mostrado um sistema chegando, mas devia passar ao norte. Não passou. Por volta das 03h00, o vento mudou. A temperatura caiu quinze graus em talvez vinte minutos. E quero dizer isso, quinze graus. Senti nas articulações antes dos instrumentos acompanharem. Comecei a me mover em direção a um ponto de cache, um abrigo de emergência que tínhamos montado na rota de aproximação. Devia ser seis horas em ritmo constante. Fiz talvez duas antes que o whiteout chegasse. Whiteout completo. Não dava pra ver três metros à minha frente. O vento uivava tão alto que não conseguia ouvir minha própria respiração. Continuei me movendo porque parar significa morrer. Essa é a regra. Você para, acabou.
Não sei por quanto tempo andei. O tempo para de significar qualquer coisa quando você não consegue ver e não consegue ouvir e o frio está comendo através de três camadas de roupa térmica. Em algum momento, o chão simplesmente não estava mais lá. Crevasse, provavelmente. Caí uns dez, doze metros. Bati numa prateleira de gelo, quicei, continuei caindo, bati em outro degrau. Pousai na mochila. Meu rádio levou o impacto do segundo choque. Invólucro rachado, circuitos expostos. Tentei assim mesmo. Estática no início, depois silêncio morto. Completamente morto. Sem sinal, sem baliza de emergência, nada. Eu estava ferido. Sabia isso sem precisar verificar. Algo errado nas costelas, minha perna esquerda não respondia direito. Mas o problema real era o frio. Lá no fundo da crevasse, fora do vento, estava na verdade mais frio. Sem movimento, sem atrito, sem geração de calor. Sentia minha temperatura nuclear caindo. Comecei a perder a sensação nas mãos primeiro. Depois nos pés. Depois no rosto. Já tinha visto homens morrerem de hipotermia. Sabia exatamente o que estava acontecendo. e então uma luz apareceu abaixo de mim, não acima - Operação Especial'
[ A história continua no jogo completo... ]