Fiquei indo e vindo sobre se devia ligar sobre isso. Mas acho que chegou a hora de alguém saber. Foi em 1986. Final da primavera, começo do verão — lembro porque os lilases estavam florindo e o cheiro estava em todo lugar. Eu morava em Millerton, que mal pode ser chamada de cidade. Talvez 800 pessoas. O tipo de lugar em que todo mundo se conhece, ou pelo menos conhece alguém de vista. Minha casa ficava na Maple Street, que soa mais charmoso do que era. Só uma fileira de casas velhas, a maioria alugadas. A minha era uma de dois andares com porão. Nada especial. Eu estava alugando há cerca de três anos nessa época. Trabalhava no elevador de grãos durante o dia e costumava passar as noites lendo ou assistindo televisão. Minha irmã ficava dizendo que eu devia sair mais, conhecer pessoas. Eu não estava interessado.
A casa ao lado estava vazia há quase um ano. O inquilino anterior tinha saído de repente, por conta de uma oportunidade de emprego ou coisa assim. Aí, em março de 86, alguém novo se mudou para lá. Um homem, provavelmente na casa dos cinquenta anos. Magro, cabelo grisalho, sempre usava o mesmo casaco marrom. Nunca descobri o nome dele. Ele não se apresentou — e foi isso que me chamou a atenção: numa cidade daquele tamanho, as pessoas se apresentam. Ele se mantinha completamente isolado. Sem visitas que eu tenha visto alguma vez. Não tinha carro; eu o via caminhando até o mercado, voltando a pé com as sacolas. As casas da nossa rua ficavam bem espaçadas, talvez uns 30 a 35 metros entre elas. Propriedades antigas com quintais grandes. Então não era como se estivéssemos um em cima do outro. Mas aqui está a questão: comecei a perceber a rotina dele. Saía todo dia pela manhã por volta das oito, voltava por volta das cinco. Pontual como um relógio. Exceto que ele não parecia ter emprego. Perguntei por aí. Ninguém sabia o que ele fazia.
A primeira vez que notei algo realmente estranho foi uns dois meses depois que ele se mudou. Era uma noite de sábado, tarde. Eu estava no meu porão lavando roupa. Tinha uma lavadora e uma secadora velha lá embaixo, e a secadora estava com problemas, fazendo um barulho de chocalho. Eu estava abaixado tentando descobrir o que havia de errado com ela. Foi então que ouvi. Um som vindo através da parede do porão. Uma espécie de lamento agudo. Não exatamente humano, não exatamente animal. Durou uns dez segundos, depois parou. Eu estava lá parado no escuro — tinha apagado a luz de cima para ver se isso faria o barulho da secadora parar — e fiquei esperando. Nada mais. Disse a mim mesmo que provavelmente era um gato. Talvez ele tivesse um gato. Mas não soou como gato. Soou errado.
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