Olá. Venho pensando nisso há anos, e finalmente decidi que precisava contar para alguém. Meu nome é Lisa, e em 1994 eu era aluna da Ariel School em Ruwa. Eu tinha onze anos quando aconteceu. Foi dia 16 de setembro, uma sexta-feira. Dia lindo, sem uma nuvem no céu. Tínhamos o recreio da manhã às dez horas, e todas as crianças foram lá fora brincar. Os professores estavam em alguma reunião lá dentro, então éramos só nós e a funcionária da cantina. Lembro que tinha brigado com minha melhor amiga no começo daquela semana por besteira, e ainda estava chateada. Havia umas 250 crianças lá fora naquele dia, de seis a doze anos. Era uma escola particular cara nos arredores de Harare, então tinha crianças de todas as origens. Brancas, negras, asiáticas. Eu estava na quinta série. Brincávamos perto da borda do campo, sabe, onde fica tudo áspero e com mato. Tinha uma área de capim alto e arbustos de espinhos, árvores crescendo na solta, mato fechado. Não era pra a gente entrar lá, mas brincávamos bem na beirada.
Então estou lá parada com talvez uma dúzia de crianças, e alguém aponta pro céu. Tinha uma coisa prateada, como um disco, flutuando acima das copas das árvores. Só parado lá. Daí apareceu outro, talvez mais dois, não dava pra saber ao certo. Reluziam ao sol, refletindo a luz. Não faziam nenhum barulho. Isso foi o que me pegou primeiro, o silêncio. Nenhum ronco de motor, nada. Eles foram descendo devagar em direção à área de mato, se movendo ao longo dos fios de energia, e então foram baixando até entrar entre as árvores e arbustos. Algumas das crianças mais novas começaram a gritar e correr de volta para o prédio da escola. Mas um bando de nós, principalmente os mais velhos, ficou olhando. Não sei por que não corri. Estava com medo, claro, mas não conseguia desviar o olhar. A coisa pousou no meio do mato, talvez a cem metros de onde estávamos. Era redonda, metálica, mais ou menos do tamanho de um carro pequeno. E foi aí que eu o vi.
Havia uma figura parada ao lado da nave. Cerca de um metro de altura, talvez um pouco mais. Estava vestida toda de preto, um traje preto brilhante que parecia quase molhado à luz do sol. Cabelo preto comprido, liso, nada parecido com cabelo africano. Mas o rosto. Nunca vou esquecer aquele rosto. Os olhos eram enormes e alongados, e ficavam mais abaixo nas bochechas do que olhos normais devem ficar. A boca era só uma fenda, quase não dava pra ver. Mal se viam orelhas. Ele ficou ali parado, nos olhando. Algumas das crianças negras ao meu redor começaram a chorar. Estavam dizendo que era um zvikwambo, um tokoloshe. Sabe, os goblins malignos das histórias antigas. Achavam que ia comer elas. Uma menina soluçava tão forte que mal conseguia ficar de pé. Pensei a princípio que talvez fosse o jardineiro da escola, mas quando olhei melhor soube que estava errada. Aquilo não era uma pessoa. Era outra coisa completamente.
[ A história continua no jogo completo... ]