Boa noite. Queria ligar sobre algo que vem acontecendo perto de onde moro. Contei pra algumas pessoas e ninguém acredita em mim, então talvez seus ouvintes acreditem. Moro a uns quatrocentos metros de uma usina nuclear. A estação geradora fora de Braidwood, ao sul de Chicago. Já faz onze anos. Comprei a casa barata porque, bem, nem todo mundo quer morar ao lado de um reator. Não me incomoda. Trabalhei em manutenção numa usina de carvão por vinte anos antes de me aposentar, então entendo como essas instalações funcionam. Nada assustador. Pelo menos, nada assustador na própria usina. Minha propriedade faz fundo com uma lavoura de milho, e além disso fica a cerca do perímetro da usina. Uns duzentos metros da minha varanda dos fundos até a cerca. Em certas noites, quando as torres de resfriamento tão trabalhando pesado e a temperatura cai, essa névoa grossa sai das torres e se assenta sobre tudo. Não dá pra ver três metros na sua frente. Minha esposa odiava essas noites. Dizia que parecia morar dentro de uma nuvem. Ela se foi há três anos, e agora é só eu aqui.
A primeira vez que os vi foi em outubro de 2017. Eu tava na varanda por volta da meia-noite, adoro ficar na escuridão - Beth' não conseguia dormir porque a artrite no joelho tava incomodando. A névoa estava pesada naquela noite, aquele cobertor branco e grosso pairando sobre o campo. E vi algo se movendo perto da cerca do perímetro. Juro pra você, eu conseguia ver com clareza mesmo com toda aquela névoa, três figuras, caminhando devagar ao longo da cerca a uns duzentos metros de distância. Humanoides. Altas, talvez dois metros e vinte. Mas erradas de alguma forma. As proporções estavam fora. Braços longos demais, pernas que dobravam em ângulos que não faziam sentido. Observei uma delas andar direto pra dentro da cerca de tela. Não parou, não escalou, não contornou. Apenas andou dentro e continuou. Através dela. Como se a cerca não estivesse lá. Como se estivesse andando através de fumaça. As outras duas seguiram. Uma atrás da outra, passando por três metros e meio de arame farpado como se não fosse nada.
Já as vi seis vezes desde então. Sempre nas noites de névoa. Sempre perto da cerca. Às vezes três, às vezes mais. O máximo que contei foi nove, se movendo em fila como se seguissem algo que eu não conseguia ver. Mês passado, juro pra você, uma delas chegou mais perto. Eu tava de pé na minha cerca dos fundos, a que separa meu quintal da lavoura de milho, só observando. E uma delas parou. Virou na minha direção. Não conseguia ver um rosto, só essa forma lisa e escura onde devia estar um rosto. E começou a andar. Em direção a mim. Passou por três fileiras de milho seco como se não estivessem lá. Então chegou na minha cerca. Tela de quatro metros, nada especial. E parou. Só ficou parada do outro lado, uns seis metros de onde eu estava. Eu conseguia ouvi-la respirando. Um som úmido e crepitante, como se algo estivesse solto dentro do peito dela. Ficamos nos olhando por não sei quanto tempo. Então ela virou e voltou pra névoa. Como se eu não valesse o esforço.
[ A história continua no jogo completo... ]