Oi, sim, obrigado por atender minha ligação. Fiquei em dúvida se devia compartilhar isso, mas meu irmão me convenceu. Ele escuta seu programa. Isso aconteceu em 2019. Outubro, acho. Talvez começo de novembro. Eu trabalhava em logística na época, gerenciamento de armazém, e tínhamos tido uma entrega atrasada, então meu supervisor mandou um monte de nós embora cedo. O que nunca acontece. A gente estava sempre com falta de funcionários. Enfim, cheguei em casa lá pelas duas da tarde. Minha esposa, Karen, trabalha em casa fazendo transcrição médica, mas sempre faz a pausa do almoço à uma e meia pra meditar. Todo dia. Mesmo horário, mesmo lugar. A sala de estar. Ela tem essas cortinas blackout que coloca, deixa tudo completamente escuro lá dentro. Diz que ajuda a concentrar. Nunca entendi muito bem, mas é a coisa dela.
Então entrei pela garagem e percebi que o carro dela tava lá, o que eu esperava. Mas algo me fez não querer entrar de qualquer jeito. Não sei por quê. Deixei o celular no carro pra não vibrar nem nada. Não queria interromper ela. Entrei pela garagem, pela porta lateral que dá pra cozinha. Essa porta não range. Não tava tentando me esgueirar nem nada, só pensei em pegar uma bebida, esperar na cozinha até ela terminar. A gente é casado há quatorze anos. Eu sei como ela fica quando a meditação é interrompida. Mas veja bem. A cozinha se abre pra sala através de um vão largo, sem porta, só um arco. E eu dei uma olhadinha. Só uma olhada. E parei.
Karen estava sentada no chão no meio do cômodo. De pernas cruzadas, mãos nos joelhos, olhos fechados. Normal. É assim que ela sempre faz. Mas havia algo na frente dela. Flutuando. Uns noventa centímetros acima do chão, talvez um metro na frente de onde ela estava sentada. E era... não sei como descrever. Era como um tubo de metal, mas dobrado. Torcido. Como se alguém tivesse pegado um cano, talvez sessenta centímetros de comprimento, e dobrado numa curva impossível. As pontas estavam anguladas pra cima, quase como chifres, mas lisas. Arredondadas. Não estava se movendo. Não estava girando nem balançando. Estava só ali. Suspenso. Completamente imóvel. E Karen estava voltada pra ele como se fosse a coisa mais natural do mundo.
[ A história continua no jogo completo... ]