Vou contar algo esta noite que nunca contei a ninguém fora de um punhado de pessoas que estavam lá. A maioria delas já morreu. Não por nada sinistro. Éramos homens jovens nos anos setenta, e homens jovens nos anos setenta faziam coisas com seus corpos que os alcançaram mais tarde. Mas eu ainda estou aqui. E acho que é hora. Não vou dar meu nome completo. Pode me chamar de Raymond. É suficientemente próximo. Não vou dizer onde moro agora, mas vou dizer que passei onze anos trabalhando para uma agência que não existe oficialmente, fazendo um trabalho que nunca foi reconhecido, em salas que não estão em nenhuma planta. Era assim. Fui recrutado em 1978, logo após sair do Exército. Tinha feito duas missões no Vietnã como operador de rádio, inteligência de sinais, principalmente. Interceptar comunicações inimigas, aquele tipo de coisa. Tinha reputação de ter boa audição. É como chamavam. Boa audição. Conseguia distinguir padrões na estática que outras pessoas não conseguiam ouvir. Conseguia dizer se uma transmissão estava sendo retransmitida ou se era direta. Ouvia coisas no ruído. Alguém notou. Alguém sempre nota.
Me abordaram em Fort Meade na primavera de '78. Dois homens de terno, sem identificação, sem nomes. Perguntaram se eu teria interesse em participar de um programa de pesquisa. Pesquisa médica, disseram. Relacionada ao processamento auditivo. Disseram que minhas habilidades particulares me tornavam candidato. Disseram que seria em serviço ao meu país. Disse que sim. Tinha vinte e seis anos e ainda acreditava em coisas. A instalação ficava no Nevada. Não na Área 51. Sei que é o que todo mundo supõe, mas não. Era menor, mais antigo. Um prédio de concreto que parecia ter estado ali desde os anos quarenta. Sem janelas. Uma porta. Guardas armados que nunca falavam. Éramos oito no programa. Todos ex-militares, todos com histórico em trabalho de sinais. Todos com o que chamavam de 'sensibilidade auditiva anômala.' Ouvíamos coisas que outras pessoas não ouviam. Coisas sutis. O zumbido da eletricidade nas paredes. A mudança de tom quando um dispositivo de gravação é ativado. A diferença entre silêncio e o silêncio de alguém ouvindo. Eles queriam tornar isso mais forte. Queriam transformar em arma.
O procedimento durou três dias. Não vou descrever tudo porque honestamente não me lembro de tudo. Nos mantinham sedados por longos períodos. Mas lembro das injeções. Algo na base do crânio, exatamente onde a coluna encontra o cérebro. Queimou como nada que já senti. Como se tivessem despejado cobre fundido na minha cabeça. E lembro dos sons que tocavam. Horas e horas de sons por fones de ouvido que estavam presos em nossas cabeças para não podermos removê-los. Frequências, principalmente. Tons que subiam e desciam. Padrões de estática. Sequências de cliques. E por baixo de tudo, quase inaudível, vozes. Nunca conseguia entender o que diziam. Quando acabou, quando finalmente nos soltaram daquelas cadeiras, o mundo soava diferente. Tudo era mais alto, mais nítido. Conseguia ouvir meu próprio coração como um tambor. Conseguia ouvir o sangue se movendo pelas minhas veias. Conseguia ouvir a corrente elétrica passando pelas luzes fluorescentes acima de nós, não um zumbido, mas uma canção. Uma canção complexa com harmônicos e variações. E conseguia ouvir equipamentos de vigilância. Esse era o ponto. É para isso que tinham nos construído. o mundo nunca mais soou igual - Raymond'
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