Ei. Trabalhei com gado no Panhandle no início dos anos 80. Devia ser 1982, da primavera até o verão. A fazenda ficava a uns sessenta quilômetros de Amarillo, bem dentro de um território bem isolado. Minha caminhonete estava na oficina naquela semana, então eu estava usando a Ford do meu irmão. Rodava feito um tanque, mas funcionava. Enfim, aqui está a coisa. Eu dirigia por aquelas estradas de terra faz anos, conferindo as linhas de cerca, transitando entre os pastos. Conhecia cada metro de arame farpado daquela propriedade. A primeira vez que vi um foi no fim de abril. Eu estava voltando para a sede por volta do crepúsculo, talvez umas sete e meia. O sol estava quase se pondo. Algo chamou minha atenção na visão periférica, à direita. Uma figura parada ao lado da linha de cerca. Alta. Muito alta. Talvez dois metros e pouco, difícil dizer exatamente. Magra como um mourão. E estava lá parada, completamente imóvel. Não se mexeu, não reagiu quando a caminhonete passou. Diminuí a velocidade, tentei ver melhor, mas quando virei a cabeça para olhar diretamente, não havia nada. Só pradaria vazia e cerca.
Vi elas umas doze vezes nos meses seguintes. Sempre ao crepúsculo ou logo depois de escurecer. Sempre perto das linhas de cerca. E sempre a mesma coisa. Eu as via pelo canto do olho, mas no segundo em que tentava olhar diretamente, elas sumiam. A parte estranha era como pareciam. Aqui está a coisa. Pareciam estar na cerca, não ao lado dela. Como se o arame farpado passasse direto por elas. Pelo peito, pelos braços, pelas pernas. Como se estivessem usando a própria cerca. Outros peões começaram a ver também. Ninguém queria falar muito sobre isso, mas você ouvia as coisas. Alguém mencionaria ter visto algo perto da cerca do pasto norte. Outro cara diria que viu uma lá perto do velho moinho de vento. Sempre a mesma descrição: alta, magra, parada no arame. Só aparecia quando você não estava olhando diretamente.
A última vez que vi uma foi em julho, pouco antes de deixar aquele emprego. Eu estava conferindo a linha de cerca do sudeste por volta das oito da noite. Ainda havia um pouco de luz no céu, mas estava escurecendo. Vi no meu campo visual periférico, a uns quarenta e cinco metros à frente. Igual sempre. Figura alta, parada completamente imóvel na cerca. Mas desta vez não desviei o olhar. Fiquei com os olhos na estrada à frente e parei a caminhonete. Fiquei lá por uns dois minutos, só observando pelo canto do olho. Nunca se moveu. Nunca se deslocou. O arame farpado parecia passar bem por onde o torso deveria estar, e eu conseguia ver, aqui está a coisa, conseguia ver que os braços estavam errados. Longos demais. Pendendo para baixo além de onde os joelhos deveriam estar. Então cometi o erro de virar para olhar diretamente. Queria ver o que era de verdade. Truques da visão são tão perturbadores — Vince. O rosto era liso, sem traços que eu conseguisse distinguir claramente. Mas os olhos, nunca vou esquecer os olhos. Escuros e vazios, como olhar para o nada. As proporções eram todas erradas, esticadas como se algo tivesse desmontado uma pessoa e remontado alta demais.
[ A história continua no jogo completo... ]