Os Rostos nos Pinheiros

Inspirado em diversas fontes, incluindo eventos documentados, relatos de encontros, anedotas pessoais e folclore. Alguns nomes, locais e detalhes de identificação foram ajustados para fins de privacidade e continuidade narrativa.

Olá. Faz uns 2 anos que eu venho adiando esta ligação. Ficava me dizendo que ia achar alguma explicação. Que ia entender o que tinha visto. Mas não achei. E a esta altura, acho que não vou encontrar mais. Sou fotógrafo. Há trinta anos, mais ou menos. Comecei na faculdade quando meu tio me deu o Pentax K1000 velho dele. Me apaixonei pelo processo. A sensação mecânica da câmera, a espera, aquela incerteza de não saber o que você capturou até revelar o filme. O digital nunca foi pra mim. Sei que isso me faz parecer um dinossauro, mas tem algo no filme. O jeito que ele enxerga as coisas diferente dos seus olhos. Trabalho principalmente com paisagens. Coisa do Noroeste do Pacífico. Florestas, litorais, montanhas. Já tive peças em galerias, vendi algumas impressões aqui e ali. Nada grandioso. É mais um hobby sério do que uma carreira agora. Dou aula de história no ensino médio pelo dinheiro mesmo. Mas a fotografia, pode acreditar, é o que me mantém são.

Foi em outubro de 2019. Eu estava planejando uma viagem solo à Gifford Pinchot National Forest em Washington. Tem uma área na parte leste, perto do Dark Divide, que é uma das florestas de crescimento antigo mais remotas dos 48 estados contíguos. Eu queria fotografar aquilo há anos. Minha esposa achava que eu era louco por ir sozinho. A gente tinha brigado por causa disso na noite anterior, na verdade. Ela queria que eu esperasse a primavera, fosse com meu amigo Carl que faz trilhas em área selvagem. Mas as cores do outono estavam no auge e eu não queria perder aquela luz. É bobagem lembrar disso, mas saí de casa naquela manhã sem me despedir direito. Ainda me pesa. Levei minha Mamiya RB67. Uma câmera de médio formato, usa filme 120. Máquina linda. Pesada demais, mas vale pela resolução. Tinha quatro rolos de Kodachrome 64. Dez exposições por rolo nessa câmera. Quarenta fotos no total para uma viagem de três dias. Você aprende a ser seletivo quando cada frame tem um custo.

O início da trilha ficava a uns dez quilômetros da estrada asfaltada mais próxima. Estacionei num acostamento e entrei caminhando. Estava nublado naquele primeiro dia, com uma cobertura espessa de nuvens, aquele cinza do Noroeste do Pacífico que pousa sobre tudo como um cobertor molhado. Visibilidade de uns noventa metros dentro das árvores. Não vi nenhuma outra pessoa em toda a viagem. Nenhuma. Nenhum outro carro no acostamento, nenhuma voz na trilha, nenhuma pegada na lama além das minhas. Era isso que eu queria. Esse tipo de isolamento muda a forma como você vê as coisas. A floresta fica maior quando você está sozinho nela. As árvores de lá são enormes. Abetos de Douglas, cedros-vermelhos-ocidentais, alguns com dois, três metros de diâmetro. Crescendo há quinhentos, seiscentos anos. Parado entre elas, você sente que está numa catedral. Tudo quieto, só o gotejo da água pelo dossel. Eu montava o tripé a cada quatrocentos metros ou mais, levava meu tempo compondo cada foto. Posso te dizer, foram os três dias mais tranquilos que eu havia tido em anos.

[ A história continua no jogo completo... ]

Experiencie a História Completa

Ouça o relato completo de Martin em Across The Airwaves.
Um jogo de simulação narrativa de rádio paranormal noturno — com muito mais histórias para descobrir. Disponível no Itch.io.