As Crianças do Espaço Rastejante

Inspirado em diversas fontes, incluindo eventos documentados, relatos de encontros, anedotas pessoais e folclore. Alguns nomes, locais e detalhes de identificação foram ajustados para fins de privacidade e continuidade narrativa.

Obrigado por atender minha ligação. Isso foi em dezembro de '77. Semana do Natal, especificamente. Tínhamos acabado de comprar aquela casa de adobe velha nos arredores de Mesilla, no sul do Novo México. O lugar tava parado vazio por oito, talvez nove anos antes de a gente pegar. A corretora não conseguia nos dizer muito sobre os donos anteriores. Disse que eles tinham ido embora às pressas e era isso. Lembro que fechamos o negócio no dia 19. Linda, minha esposa, queria esperar até janeiro pra se mudar. Achava loucura tentar fazer o Natal numa casa sem aquecimento funcionando. A gente tinha brigado sobre isso por semanas. E é justamente isso, eu tava teimoso com a situação toda. Não deixava pra lá. Meu irmão achava que eu tinha perdido o juízo, arrastando minha família pra lá no meio do inverno. Linda finalmente concordou, mas ela e as crianças ficariam no Desert Inn em Las Cruces até eu consertar o aquecimento. Então naquela semana toda antes do Natal, do dia 22 ao 25, eu tava lá sozinho. Só eu, uma sacola de dormir, um rádio transistor e uns quarenta anos de poeira. As paredes de adobe eram grossas. Sessenta centímetros de tijolo de barro, talvez mais. A corretora ficava falando sobre como seria quieto, como seria tranquilo. E era quieto. Sem tráfego, sem vizinhos a meio quilômetro. Só o vento e a casa velha se acomodando.

Primeira noite, acordei por volta das 2 da manhã. Achei que fosse o rádio no início, mas tinha desligado aquilo horas antes. Era risada. Crianças rindo, em algum lugar dentro das paredes. Sentei dentro do saco de dormir, coração disparado. Tentei descobrir de onde vinha. O som se movia. Começou perto do quarto, depois foi descendo em direção à cozinha. Agudo, como crianças pequeninhas brincando de algum jogo. Mas o ritmo estava errado. Rápido demais, depois lento demais, depois rápido de novo. Como se elas não entendessem bem como a risada deveria funcionar. Me disse que era o vento. Casas velhas fazem barulhos. Mas eu conhecia o vento, e aquilo não era. Linda ouviu também, na véspera de Natal. Ela tava bem do meu lado quando começou de novo. a família passou 3 meses num motel enquanto reformava - Reese' Me agarrou com força suficiente pra deixar hematomas na manhã seguinte. O som vinha de todo lugar ao mesmo tempo. Através das paredes, sob o chão, em algum lugar acima do teto. Se movia ao redor de nós como se estivéssemos cercados. E é isso — cresci com quatro irmãos. Sei como crianças soam quando estão brincando. Aquilo estava perto. Muito perto. Mas não era certo. Como algo tentando imitar risada sem jamais ter ouvido a coisa real.

Na manhã de Natal, finalmente fui pro espaço de rastejar. Havia um painel de acesso no armário do corredor. Tinha evitado aquilo desde que nos mudamos. Não queria saber o que havia lá embaixo. Peguei uma lanterna, tirei o painel e me espremei pra dentro. O espaço tinha uns noventa centímetros de altura. Chão de terra, vigas de madeira velhas sustentando a casa acima de mim. Cheirava a terra e a algo mais que eu não conseguia identificar. Algo que apertava minha garganta. Foi aí que vi as marcas de mão. Estavam em todo lugar. Dezenas delas, impressas fundo na terra. Pequenas, como seriam as mãos de crianças. Mas os dedos eram compridos demais. Muito compridos demais. E tinham juntas demais. Dava pra ver as marcas dos nós das juntas claramente — quatro articulações por dedo em vez de três. Algumas pareciam ter seis dedos. Algumas tinham mais. Cobriam tudo. As vigas de madeira, o chão de terra, até pressionadas na parte inferior do assoalho acima de mim. Como se crianças tivessem engatinhado lá embaixo por anos. Décadas, talvez. Parei de contar depois de trinta conjuntos diferentes de marcas. Saí recuando tão depressa que rasguei minha camisa num prego exposto. Deixei um pedaço de pele nele também. Não senti até mais tarde.

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