Eu trabalhava na doca de carga de um armazém de distribuição em Newark. Era verão de 1983, junho ou julho, um daqueles meses em que o calor gruda em você o dia inteiro. Tava lá fazia uns três anos nessa época. Carregando, descarregando, conferindo estoque. Trabalho de armazém padrão. O cara de quem estou falando se chamava Carlos. Carlos Mendez. Bom trabalhador, ficava na dele na maior parte do tempo. A gente não era amigo chegado nem nada, mas a gente fazia o mesmo turno há mais de um ano. Sabe o que quero dizer? Você vai conhecendo a rotina de alguém, como a pessoa trabalha. O Carlos era metódico. Sempre conferia o trabalho duas vezes, nunca se apressava. Aquele dia específico era uma terça-feira. Lembro porque a gente sempre recebia as remessas grandes nas terças e quintas. Era por volta das duas e meia da tarde, no meio do turno. A gente tinha umas seis ou sete containers de carga enfileiradas na doca, todas as de vinte pés padrão. A maioria já tinha sido carregada e fechada. A gente tava trabalhando nas últimas.
O Carlos foi designado pro Container 12. Era assim que a gente rastreava, por número. Ele tava encostado contra a baia de carga, uma extremidade aberta, a outra fechada como sempre. Ele tava fazendo uma conferência final de estoque antes de a gente fechar. Eu tava trabalhando no container do lado, uns cinco metros de distância. Vi ele subir no Container 12. Fiquei olhando ele entrar com a prancheta, mexendo naquelas caixas pra verificar a contagem. O negócio é que esses containers não são tão grandes assim. Seis metros de comprimento, dois e meio de largura. Você vê de uma ponta a outra, mesmo com caixas empilhadas dentro. Não tem onde se esconder, sabe o que quero dizer? Voltei pro meu trabalho. Não deve ter passado mais de dois, talvez três minutos. Então ouvi o Miguel, outro cara da nossa equipe, gritando. Ele perguntava onde o Carlos tinha ido. Olhei e o Container 12 tava lá na mesma, porta bem aberta, mas o Carlos não tava dentro. O Miguel foi conferir. Eu também fui lá. O container tava vazio. Todas as caixas estavam lá, arranjadas exatamente do jeito que o Carlos teria deixado. A prancheta dele tava em cima de uma das pilhas. Mas o Carlos tinha sumido.
A gente procurou em todo canto. Revistamos a doca de carga inteira. Conferimos entre os containers, conferimos o chão do armazém atrás da gente, conferimos os banheiros, a sala de descanso. Chamamos o nome dele aos gritos. Nada. A parte estranha, e não consigo explicar isso, é que eu tava de olho. Não o tempo todo, mas eu tinha uma visão clara daquele container. Só tem uma entrada e saída nessas coisas. Ele teria que ter passado por mim pra sair da doca. Mas fiquei verificando as duas extremidades do container e ele nunca saiu por nenhum dos lados. um container fechado sem saída é perturbador - Eva' Chamamos o supervisor. Ele desceu, a gente explicou o que tinha acontecido. Ele não acreditou de início, achou que o Carlos talvez tivesse dado uma volta pra descansar. Mas Carlos não era do tipo de simplesmente largar o serviço no meio. E a prancheta dele ainda tava lá, a caneta, o copo térmico de café na doca. Depois de uns vinte minutos, alguém o achou. Ele tava no estacionamento, sentado no carro. Só sentado lá, olhando pra frente, as chaves na mão mas o carro não tava ligado.
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