Boa noite. Queria compartilhar algo que me aconteceu alguns anos atrás. Meu irmão fica me dizendo que eu devia ligar sobre isso, então aqui estou. Foi em setembro de 2019. Eu pesquei no Lago Teal, perto da fronteira com o Canadá, a vida inteira. Quarenta anos, mais ou menos. Meu pai me levou lá quando eu tinha oito anos, e venho voltando todo outono desde então. Conheço aquele lago melhor do que conheço meu próprio quintal. Cada enseada, cada declive, cada tronco submerso. Te digo, não tem um centímetro quadrado daquela água que eu não tenha pescado. É por isso que o que vi não faz sentido. Porque sei o que tem naquele lago. Lúcio. Walleye. Robalo. Sanguessugas, caranguejos e tartarugas. Sei o que vive lá dentro. E o que eu vi naquela manhã não era nada disso. Tinha dirigido até lá na noite anterior, dormido na minha caminhonete no ponto de acesso. Tem esse barranco de terra pequeno no lado leste do lago, mal sinalizado, a maioria das pessoas nem sabe que existe. Gosto dali porque você tem o lago inteiro pra você. Sem jet ski, sem barcos de festa. Só você e a água.
Lancei bem no primeiro clarão. Talvez seis e quinze, seis e vinte. O sol estava só surgindo sobre a linha de árvores, tudo com aquele brilho alaranjado. Sem vento algum. O lago estava como vidro. Quer dizer, espelho perfeito, dava pra ver as nuvens refletidas na superfície nítidas como uma fotografia. A própria água estava escura, porém. Naquela época do ano, depois de toda a alga do verão, a visibilidade era talvez trinta centímetros, quarenta. Verde turvo, como caldo de ervilha. Não dava pra ver a mão se você enfiasse até o pulso. visibilidade na água assim é frustrante pra pescar - Alex' Fui a motor até meu lugar habitual, uma pequena plataforma uns duzentos metros da margem onde o walleye gosta de se alimentar de manhã. Desliguei o motor, soltei a âncora, comecei a preparar minha linha. Tudo normal. Tudo do jeito que sempre foi. Eu tava lá há uns vinte minutos quando percebi que os peixes tinham parado de morder. Não só diminuído, parado completamente. Tinha tido três mordidas nos primeiros dez minutos, boas, depois nada. Achei que talvez uma frente tivesse chegando, mudança de pressão, algo assim. Tava prestes a me mover pra outro lugar quando olhei pra baixo na água. E vi.
A princípio pensei que era um reflexo. Algum truque da luz, o sol naquele ângulo baixo fazendo algo estranho. Mas não estava na superfície. Estava abaixo. Bem abaixo. Te digo, estava pelo menos a quatro, talvez seis metros de profundidade. E eu conseguia ver com clareza. Essa forma. Enorme. Devia ter uns quatro metros de altura, talvez mais. Vagamente humanoide, como uma pessoa, mas errada. As proporções todas fora. Braços compridos demais. Cabeça pequena demais. Sem feições que eu pudesse distinguir, só essa superfície lisa e em branco onde devia estar um rosto. E era translúcida. Essa é a única palavra. Como se fosse feita de vidro sujo, ou gelo que não tinha congelado completamente. Eu conseguia ver através dela, de certa forma, ver a turvidez da água atrás. Mas tinha massa. Tinha presença. Não era uma sombra nem truque da luz. Estava lá. Estava de pé no fundo. Só parada ali. E estava me olhando de baixo. Não sei como eu sabia disso. Ela não tinha olhos, pelo menos não que eu pudesse ver. Mas eu conseguia sentir que me observava. Do jeito que você sente alguém encarando a nuca.
[ A história continua no jogo completo... ]