E aí. Tô ligando lá de Ochopee, bem no fundo dos Everglades. Tenho uma história de quando eu era criança, dez anos, lá em 1974. Foi logo depois de transformarem o Big Cypress em reserva nacional, e minha família morava por aqui há gerações. A gente conhecia esses pântanos melhor do que ninguém. Era final do verão, meados de agosto. Um calor absurdo, umidade tão grossa que mal dava pra respirar. Eu e meu irmão mais velho Tommy távamos caçando veado no pântano atrás da nossa casa. Não era nenhuma pescariazinha, entende. A gente fazia isso desde que tava alto o suficiente pra segurar um rifle. Conhecíamos cada toco de cipreste, cada trecho de capim-navalha por lá. Tommy tinha dezesseis, eu tinha dez. Meu pai tinha ensinado os dois a caçar, e a gente saía quase todo fim de semana na temporada. Naquele dia, a gente trabalhava devagar pelo brejo, tentando encontrar rastros de veado na lama. A água tava talvez no tornozelo na maioria dos lugares, mais funda em outros. Você tinha que prestar atenção onde pisava.
A gente tinha ficado lá por talvez duas horas, não tinha visto muita coisa. Só algumas aves pernaltas, um par de jacarés tomando sol nas margens. Coisa normal. Então Tommy parou de repente. Simplesmente congelou. Quase andei em cima dele. 'Danny,' ele disse, bem baixinho. 'Não se mexa. Olha ali.' Olhei pra onde ele apontava, mas não consegui ver nada. O capim-navalha era alto demais, passava dos meus ombros na maioria dos lugares. Eu era só um garoto, sabe. Tentei ficar na ponta dos pés, esticar o pescoço, mas ainda não conseguia ver o que ele tava olhando. 'O que é?' eu sussurrei. 'É um veado?' 'Não,' Tommy disse. A voz dele soou estranha. Não assustada exatamente, mas algo próximo disso. 'É... não sei o que é.' Aí ele me pegou pelos braços e me ergueu pra eu conseguir ver por cima do capim. E foi aí que eu vi.
A uns cem metros de distância, havia essa coisa andando pelo brejo aberto. E eu digo andando em dois pés, como uma pessoa. Mas não era pessoa nenhuma. Era grande, talvez dois metros, dois metros e vinte. E estava completamente coberta de pelo. Marrom avermelhado escuro, desgrenhado. Encharcado da água do pântano. histórias dos Everglades remontam décadas - Wade' O jeito que ela se movia, não era como um urso. Urso bamboleia, sabe. Fica meio desajeitado em dois pés. Aquela coisa andava firme. Com propósito. Como se soubesse exatamente pra onde ia. Braços balançando ao lado do corpo, igualzinho como uma pessoa andaria, só que os braços eram mais compridos. Chegavam até abaixo dos joelhos. 'O que é aquilo?' lembro de ter perguntado ao Tommy. Minha voz saiu toda aguda e fina, como ficava quando eu ficava nervoso. 'Eu acho... acho que é aquilo que meu pai falou pra gente,' Tommy disse. 'Aquela coisa que o povo Seminole conta. O homem peludo do pântano.' A gente tinha ouvido as histórias, sabe. Crescendo aqui, todo mundo tinha ouvido falar do skunk ape. Nosso pai dizia que o avô dele contava histórias de ter visto um lá pelos anos 1890. Dizia que cheirava horrível, como carne podre e cão molhado misturado. Mas eu nunca tinha acreditado de verdade que era real.
[ A história continua no jogo completo... ]