Isso aconteceu em outubro de 1996. Eu tava na Monongahela, caçando com arco. Eu ia pro mesmo lugar por anos, meu avô me mostrou quando eu tinha uns doze anos. Boa elevação, carvalhos fechados, bastante trilhas de caça cortando por ali. E olha, eu conhecia cada crista e cada baixada naquela área. Naquela manhã específica, eu tinha chegado ao meu poleiro bem antes do amanhecer. Frio suficiente pra ver o bafo, mas não gelando. Tempo perfeito pra caçar. Tinha deixado o rifle no acampamento, era a temporada de arco, e eu queria fazer direito. Só eu, meu arco composto e umas três horas sentado completamente imóvel esperando os veados passarem. O sol foi surgindo devagar entre as árvores. Você conhece aquela luz, quando tudo fica dourado e a névoa ainda paira nos baixos. Eu conseguia ouvir a floresta acordando. Pássaros começando seus cantos, esquilos se movendo no dossel. Sons normais. Sons familiares.
Eram umas sete e meia quando percebi a mudança. Os pássaros primeiro silenciaram. Não todos de uma vez, mais como uma onda de silêncio se movendo pelas árvores vindo do norte. Então eu vi. Ou melhor, vi o que aquilo estava fazendo antes de vê-lo. Havia uma clareira uns quarenta metros do meu poleiro. Capim alto, algumas flores silvestres que ainda não tinham murchado. E fiquei olhando o capim começar a dobrar. Como se algo estivesse andando por ele. Mas não havia nada lá. Só o capim dobrando num caminho, lento e deliberado. Não era vento, eu sabia a diferença. Aquilo era peso. Eram passos. O ar acima do capim começou a fazer uma coisa. Sabe quando faz muito calor e você vê o calor subindo do asfalto? Aquela cintilação, aquela distorção. Era assim, mas estava com dez graus lá fora. Não devia ser possível. Mas eu tava vendo aquilo se mover por aquela clareira, essa ondulação no ar com a forma de algo grande. Algo talvez do tamanho de um urso negro, mas mais comprido. Baixo no chão.
Então eu o vi. Vi de verdade. O efeito de cintilação simplesmente... desapareceu, como se alguém tivesse desligado um interruptor. E havia esse animal parado na clareira. Não sei o que era. Parecia talvez uma grande felina, do tamanho de um puma, mas as proporções estavam erradas. O corpo comprido demais, as patas grossas demais. Pelo marrom escuro, quase preto em alguns pontos. E a parte mais estranha era o jeito que ele se movia. A cada poucos segundos, o contorno vacilava. Como se eu estivesse vendo através da água. a temporada de caça te consome bastante - Wyatt' E aí solidificava de novo. Eu tava com o rifle apontado pra ele, não porque fosse atirar, mas porque eu queria estar pronto caso viesse em direção à minha árvore. Minhas mãos tremiam tanto que eu mal conseguia manter a mira estável. Aquela coisa tava a uns setenta metros agora, e estava olhando ao redor. Procurando algo. A cabeça girou na minha direção e eu juro que ela me olhou diretamente.
[ A história continua no jogo completo... ]