Oi, obrigado por atender minha ligação. Estou ligando do Chile, então espero que a conexão aguentar. Isso aconteceu em fevereiro de 1999. Eu tinha vinte e seis anos e trabalhava como guia de montanha em Puerto Natales. É a cidade de entrada para Torres del Paine, se você conhece a região. Eu já guiava há três anos naquela época e conhecia aquelas montanhas melhor do que a maioria. Meu amigo Miguel e eu tínhamos planejado uma escalada pessoal naquela semana. Não era uma excursão guiada, só os dois. Queríamos tentar uma rota na face leste do Paine Grande, algo que vinhámos planejando há anos. Deixamos o equipamento pesado no acampamento base para nos mover rápido. O rádio, o sinalizador de emergência, a maior parte da comida. Só levamos o necessário para dois dias de esforço intenso. Você viaja leve quando sabe o que está fazendo. O tempo estava perfeito quando saímos. Céu limpo, quase sem vento. Aquilo deveria ter sido o primeiro sinal de alerta. O tempo na Patagônia não fica perfeito por muito tempo.
A tempestade chegou rápido. Num minuto dava para ver o cume, no outro não conseguíamos enxergar dez metros à frente. O vento chegou a uns setenta, oitenta quilômetros por hora. A temperatura caiu tão rápido que minha garrafa d'água começou a congelar. Estávamos a cerca de 1.800 metros, ainda bem abaixo da seção técnica, mas a rocha estava ficando escorregadia de gelo. Miguel avistou a caverna primeiro. Só uma abertura escura na parede do penhasco, uns três metros de largura. Não pensamos duas vezes. Você não pensa, nessas condições. Você encontra abrigo ou morre. Simples assim. Lembro o alívio que senti só de sair daquele vento. O silêncio repentino. A tempestade ainda estava uivando lá fora, mas dentro era como se alguém tivesse abaixado o volume. Peguei a lanterna e avançamos para dentro. A caverna ia mais fundo do que eu esperava. O chão era irregular, molhado em alguns pontos. Estávamos uns quinze metros dentro quando Miguel parou e agarrou meu braço. Joguei a luz para frente e foi aí que minha mão começou a tremer. Deixei a lanterna cair. Ela bateu na rocha e a lâmpada quebrou. Escuridão total.
Mas eu já tinha os visto. Naquele segundo antes da luz apagar, eu os tinha visto. Duas formas no fundo da caverna, uns dez metros mais fundo. Estavam agrupadas, se é que essa é a palavra certa para coisas assim. Tinham três pernas cada. Não como um tripé para câmera. Mais orgânico do que isso, mas errado. As pernas desciam de uma massa central, espaçadas uniformemente, grossas no topo e se afilando até pontas. Os corpos eram feitos de algo parecido com quartzo. Bruto, sem polimento, do jeito que se encontra no chão. Ou talvez diamante. Não sei. Tinha aquela mesma qualidade, aquela dureza, aquelas facetas irregulares. Conseguia ver a textura, o jeito como as superfícies captavam o pouco de luz que havia. Não tinham cabeça. Nada que eu pudesse identificar como rosto. Mas no centro de cada um havia um brilho. Um núcleo de luz que se movia e oscilava dentro deles. Mudava de cor lentamente. Azul para branco para algo quase rosado. Como assistir a um pôr do sol acontecer dentro de um pedaço de vidro.
[ A história continua no jogo completo... ]