O Encontro com o Mapinguari

Inspirado em diversas fontes, incluindo eventos documentados, relatos de encontros, anedotas pessoais e folclore. Alguns nomes, locais e detalhes de identificação foram ajustados para fins de privacidade e continuidade narrativa.

Ligo do oeste da Amazônia, da reserva Karitiana. Meu povo, a gente vive nessa floresta por mais gerações do que ninguém consegue contar. E deixa eu te dizer, tem coisas aqui que os de fora não entendem. Coisas que eles dizem ser só histórias. Mas eu sei o que é verdade. Isso aconteceu em 2003. Eu tinha vinte e sete anos, caçava essas florestas desde menino. Conhecia cada trilha, cada fonte de água, cada bom lugar pra caça. A selva era como meu quintal, sabe? E é exatamente isso, quando você conhece um lugar assim, você percebe quando algo está errado. Quando algo não deveria estar lá. Naquele dia específico, tinha saído desde cedo. A caça tinha sido boa perto da aldeia, mas queria ir um pouco mais longe, tentar a sorte numa área que não verificava fazia tempo. Minha esposa me disse pra voltar antes de escurecer. Lembro que ela estava brava comigo porque tinha esquecido de consertar o telhado como tinha prometido. Engraçado o que você se lembra. Então saí com meu rifle e meu facão. O tempo estava limpo, quente. Devia ser por volta do meio-dia quando comecei a entrar na floresta mais densa.

Tem um lugar que chamamos de caverna do mapinguari. Fica a umas duas horas de caminhada da aldeia, talhada no lado de uma ribanceira rochosa. Por todo o tempo que nosso povo conta histórias, sempre dizemos que você não chega perto daquela caverna. Simplesmente não chega. Meu avô me contou. O avô dele lhe contou. O mapinguari mora lá. Ou vem de lá. Ou algo assim. As histórias não são todas iguais, mas dizem a mesma coisa: fique longe. Não planejava chegar perto. Caçava talvez meio quilômetro distante, rastreando um porco-do-mato. Mas então ouvi esse barulho. E é que eu já ouvi tudo que essa floresta pode produzir. Gritos de onça, bugios, tempestades rasgando o dossel. Não era nada disso. Era como árvores quebrando. Várias árvores, ao mesmo tempo. E se movia. Se aproximando. O som ficava mais alto. O que quer que fizesse aquilo não tentava ser quieto. Fiquei parado onde estava, rifle em posição, tentando ver pela vegetação. A floresta estava escura mesmo sendo de dia, o dossel tão espesso acima de mim. Tudo ficou muito quieto. Até os pássaros pararam.

Então vi o movimento. Algo enorme empurrando pela vegetação a uns quarenta metros. A princípio achei que fosse uma anta, mas antas não se movem assim. Essa coisa era alta. Quando se ergueu nas patas traseiras, tinha mais de dois metros. Talvez dois metros e vinte. Era coberta de pelo castanho-avermelhado escuro, todo emaranhado e espesso, como nada que eu já tinha visto. Os braços eram longos, descendo até onde ficariam os joelhos. Fazia um som baixo e retumbante. Não era bem um rosnado, não era bem um rugido. Mais como uma vibração constante que você sentia no peito. E seguia em direção à minha aldeia. Indo pra casa. Dava pra ver a direção geral que se movia, e meu coração afundou. Pensei na minha esposa, nos meus filhos, em todos lá. Não sei o que me fez achar que poderia fazer algo a respeito. Mas comecei a me mover mais perto, tentando ver melhor. Talvez eu pudesse assustá-lo, disparar um tiro no ar. Alguma coisa. A criatura se movia pela floresta como se as árvores não estivessem lá, empurrando tudo. Dava pra ver galhos quebrados, samambaias pisoteadas, tudo no seu caminho simplesmente destruído. relatos da região do rio Purus são bem documentados - Rose'

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