Trabalho como criptozoólogo. Pesquisador independente, principalmente. Sei como isso soa para algumas pessoas, mas é um trabalho legítimo. Passei os últimos quinze anos documentando avistamentos de animais inexplicados no norte da Europa. Isso aconteceu no final de novembro de 2003. Eu estava nas Ilhas Faroé fazendo pesquisa de campo sobre relatos de predação incomum de gado. Os moradores falavam sobre ovelhas desaparecendo, outras encontradas mortas de maneiras que não correspondiam a nenhum predador conhecido na região. As Faroé não têm grandes predadores. Sem lobos, sem ursos. Então quando os agricultores começaram a encontrar ovelhas com ferimentos estranhos, soube que precisava investigar. Voei para Vágar e fui até Streymoy, a maior ilha. O clima era brutal nessa época do ano. O sol mal nasce no final de novembro por lá, apenas algumas horas de penumbra. Frio, úmido, com vento. Condições perfeitas para algo se mover sem ser notado.
Fiquei em uma pequena hospedagem perto de Tórshavn por cerca de uma semana, entrevistando agricultores e pastores. Um homem, que chamarei de Jóan, me falou sobre uma área nas encostas do leste onde havia perdido três ovelhas em duas semanas. Ele não ia mais lá. Disse que havia algo de errado com o lugar. Resolvi verificar por mim mesmo. Levei pouco equipamento porque o terreno é acidentado por lá. Só meu caderno de campo, alguns sacos para amostras, equipamento de acampamento básico. Minha câmera Nikon era o único equipamento que tinha comigo para documentação. A duração da bateria não é boa no frio, então eu era cuidadoso sobre quando usá-la. A caminhada levou cerca de duas horas. Rochosa, íngreme em alguns trechos. A grama estava escorregadia por causa da umidade constante. Eu conseguia ouvir o oceano de todas as direções, aquele rugido de fundo constante. Quando cheguei à área que Jóan havia descrito, a luz já começava a diminuir. Eram talvez duas da tarde, mas parecia crepúsculo.
Comecei a encontrar sinais com bastante rapidez. Tufos de lã presos em pedras. Solo revolvido. Então vi a primeira carcaça. Era uma ovelha, ou o que restava dela. Mas o negócio é que não estava despedaçada da forma como um predador teria feito. O corpo estava intacto exceto pela área abdominal. E quero dizer cirurgicamente aberto. Bordas limpas. Os intestinos tinham sumido. Simplesmente sumido. Não espalhados por aí como num banquete. Simplesmente faltando. Já fazia esse trabalho tempo suficiente para não me perturbar facilmente, mas algo naquilo parecia errado. Equivocado. Tirei algumas fotos, anotei sobre a posição e o estado do animal. O cheiro ainda não era ruim. O frio preserva as coisas. Então encontrei os rastros.
[ A história continua no jogo completo... ]