Obrigado por atender minha ligação. Trabalhei como faroleiro por onze anos. As pessoas acham que essa profissão não existe mais, mas existe. Alguns dos faróis mais antigos ainda precisam de presença humana, principalmente manutenção, monitoramento dos sistemas automatizados. O que eu trabalhava ficava num ponto rochoso uns sessenta quilômetros ao sul de Astoria. Não vou citar o nome especificamente. Eu era o único faroleiro lá naquele inverno. Só eu, as gaivotas e as tempestades. Peguei o emprego depois do meu divórcio. Precisava de silêncio, precisava me afastar das pessoas por um tempo. Minha irmã achava que eu estava tendo um colapso. Talvez estivesse. Mas o farol me pareceu certo. O isolamento não me incomodava. Eu tinha meus livros, meu rádio, o som das ondas. Tô te dizendo, eu estava mais em paz lá do que tinha estado em anos. Isso mudou em fevereiro de 2008. Foi quando vi pela primeira vez.
Fevereiro na costa do Oregon é brutal. Tempestade atrás de tempestade vindo do Pacífico. Vento que derruba você se não tiver cuidado. Chuva que vem de lado. Algumas noites a visibilidade cai a zero. Seis metros, talvez menos. as tempestades costeiras são absolutamente brutais - Luna' O farol faz seu trabalho, mas você não consegue enxergar muito além do feixe cortando a escuridão. As pedras abaixo da estação são terríveis. Basalto negro, afiado como vidro quebrado, coberto de algas. Quando a maré está baixa dá pra ver elas se projetando como dentes. Nada vive nessas pedras. Nem os caranguejos querem saber delas. Por isso quando vi algo se movendo lá embaixo, soube que havia algo errado. A primeira vez foi durante uma tempestade, madrugada. O feixe girou e eu captei um movimento. Só um lampejo, algo pálido contra a rocha negra. Pensei que fosse entulho. Talvez uma foca ferida que tivesse encalhado. Mas ela se movia de um jeito que não fazia sentido. Se movia como se estivesse se desdobrando.
Peguei o holofote que a gente guarda pra emergências e fui pra galeria, que é a passagem em volta da sala da lâmpada. O vento quase me jogou por cima do corrimão. nunca trabalharia sozinho num lugar desses - Felicity' Me firmei e apontei a luz pras pedras. Era humanoide. Foi o primeiro pensamento que tive. Dois braços, duas pernas, uma cabeça. Pele cinza pálida, quase branca. Mas estava escalando as pedras de um jeito que nenhuma pessoa conseguiria. Os membros dobravam em lugares onde não deveria haver articulações. O braço fazia cotovelo, depois mais uma dobra, depois outra, dobrando pra trás e pra lado ao mesmo tempo. As pernas eram iguais. Contei pelo menos cinco pontos de articulação em cada perna. Tô te dizendo, parecia que alguém tinha pego um corpo humano e adicionado dobradiças. Ele se estendia, se alongava comprido e plano pra alcançar um apoio, depois se contraía nessa forma comprimida pra se espremer numa fresta entre as pedras. Dobra, desdobra, dobra, desdobra. Como assistir uma aranha feita de papel.
[ A história continua no jogo completo... ]