Boa noite. Agradeço por atender minha ligação. Estou ligando do Japão, da Prefeitura de Hiroshima. Já não falo mais muito sobre isso. Minha família acha que devia deixar pra lá. Mas ouvi seu programa, e pensei, aqui são pessoas que podem entender. O que me aconteceu foi no verão de 1970. Julho. Eu era fazendeiro, trabalhando a terra perto do Monte Hiba. Uma paisagem linda. Muito verde, muito quieta. O tipo de lugar onde nunca acontece nada estranho. Era o que eu acreditava, de qualquer forma. Devo dizer que minha esposa tinha me reclamado a semana toda que eu estava trabalhando demais. Queria que eu descansasse. Mas havia chuva chegando, eu sentia, e precisava verificar os canais de irrigação antes da tempestade. Então fui aos campos do fundo, os que fazem divisa com a floresta na base da montanha. Era fim de tarde, talvez quatro horas. O sol estava começando a ficar baixo. E foi então que eu vi.
Havia grama alta na borda da minha propriedade, onde começa a floresta. Mato, ervas, coisas que eu tinha intenção de limpar há anos. Ouvi movimento primeiro. Farfalhar. Pensei que fosse um javali selvagem, temos esses na área, ou talvez um veado que tinha descido da montanha. Parei e observei. E então saiu da vegetação. Bem na minha frente. A uns dez metros. Digo isso e sei como soa. Estava em pé na vertical. Como um homem. Tão alto quanto eu, talvez um pouco mais baixo. Mas não era um homem. O corpo estava coberto de pelo preto. Espesso, escuro, como nada que eu tinha visto em nenhum animal do Japão. O rosto. Nunca vou esquecer o rosto. Grotesco é a palavra que tenho usado quando tento descrever. A cabeça era grande demais pro corpo, em formato de triângulo apontando para baixo. O nariz era achatado, afundado, como de símio. Mas os olhos, é o que me lembro com mais clareza. Eram inteligentes. Me olhavam, e eu sabia que havia algo pensando por trás daqueles olhos. Me observando. Me estudando. Tentando decidir o que eu era.
Não conseguia me mover. Digo isso honestamente, minhas pernas não funcionavam. Fiquei parado ali, e ele ficou parado ali, e nos olhamos. Não sei por quanto tempo. Pareceu uma hora. Provavelmente foram apenas alguns segundos. Havia um cheiro também. Horrível. Como algo apodrecendo. Como carne velha deixada ao sol. Vinha da criatura em ondas. E então ela se moveu. Não em direção a mim, graças a Deus. Se virou e voltou pra vegetação, pra floresta. Mas eis o que fica comigo. Não correu como um animal corre. Se moveu rápido, muito rápido, mas de forma controlada. Como se soubesse exatamente pra onde ia. Como se tivesse feito isso antes. Desapareceu nas árvores quase sem fazer nenhum barulho. Um momento estava ali, me encarando com aqueles olhos penetrantes. No momento seguinte, sumiu. Só o cheiro no ar e a grama ainda se movendo onde ela tinha passado.
[ A história continua no jogo completo... ]